Da Revista de Seguros: uma reportagem retrata legado e desafios pós-pandemia
Uma das reportagens publicadas na edição nº 916 da Revista de Seguros (jan/fev/mar 2021) retratou o legado e os desafios da pós-pandemia, além das perspectivas de recuperação do mercado segurador àquela altura na América Latina.
Acesse o conteúdo da edição nº 916 da Revista de Seguros (jan/fev/mar 2021)
A maior retração econômica em mais de um século
Os primeiros anos após a pandemia de Covid-19 ficaram marcados por um sentimento compartilhado em toda a América Latina: reconstrução. Depois de uma contração econômica sem precedentes - considerada pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) a pior em 120 anos - os países da região passaram a enfrentar a tarefa de reerguer suas economias, lidar com as cicatrizes sociais da crise sanitária e reconstruir as bases do crescimento.
O chamado “dia seguinte” da pandemia começou com números duros. Em 2020, o PIB médio da América Latina e do Caribe encolheu cerca de 7,7%, com retrações expressivas em praticamente todos os sub-blocos regionais. A América Latina registrou queda de 7,3%, a América Central recuou 6,5% e o Caribe sofreu contração de 7,9%. Era um retrato da paralisia global provocada pelas medidas de isolamento, pela interrupção das cadeias produtivas e pela incerteza que tomou conta de governos e empresas.
Mas o cenário, ainda que dramático, não era de paralisia permanente. Na virada para os anos seguintes, começaram a surgir sinais de retomada. A Cepal projetava crescimento regional em torno de 3,7%, indicando que os países iniciavam um lento processo de recuperação econômica e social. Esse movimento, no entanto, dependia de fatores críticos que, na avaliação de especialistas ligados ao setor segurador latino-americano, continuariam definindo o ritmo da retomada: o controle da pandemia e a capacidade de geração de empregos.
Caminhos distintos para a recuperação regional
Executivos e representantes do mercado de seguros ouvidos à época destacavam que a recuperação da região não seria homogênea. As diferenças estruturais entre as economias — nos sistemas políticos, na capacidade institucional e no espaço fiscal de cada governo — indicavam que cada país seguiria um caminho próprio na reconstrução pós-pandemia.
No Brasil, a avaliação predominante era de cautela otimista. As projeções para o crescimento econômico oscilavam entre 3% e 3,6%, segundo estimativas de organismos como Fundo Monetário Internacional, Banco Mundial e Banco Central. Para que o país consolidasse esse movimento, especialistas do setor segurador apontavam a necessidade de três pilares fundamentais: avanço consistente na vacinação, controle do déficit fiscal e retomada das reformas estruturais.
Apesar da severidade da crise social, que levou o desemprego a atingir mais de 22 milhões de brasileiros, o país contou com um conjunto de medidas anticíclicas que ajudaram a amortecer os impactos da recessão. O auxílio emergencial, por exemplo, chegou a alcançar cerca de 68 milhões de pessoas, equivalente a quase um terço da população. Somado às linhas de crédito para empresas e à política monetária expansionista, esse conjunto de ações ajudou a sustentar o consumo e a preservar parte da atividade econômica.
A estratégia do Banco Central de manter juros em patamar reduzido e preservar a estabilidade inflacionária foi vista como elemento decisivo para a travessia daquele período crítico. Ainda assim, permanecia a percepção de que o crescimento sustentável dependeria de uma combinação delicada entre política monetária, política fiscal equilibrada e abertura ao comércio internacional.
Em outros países da região, a dinâmica da recuperação também refletia as particularidades locais. Na Bolívia, por exemplo, as expectativas de crescimento variavam entre 3,9%, segundo o Banco Mundial, e 4,8%, conforme estimativas do governo. O desempenho dependia, em grande parte, da retomada do comércio internacional de commodities, especialmente gás, minerais e cereais, e da capacidade do país de implementar políticas de investimento público e privado que impulsionassem a atividade econômica.
Especialistas bolivianos também destacavam que a flexibilização gradual das restrições sanitárias e o avanço da vacinação poderiam estimular o movimento econômico global, criando condições mais favoráveis para a recuperação regional. Ainda assim, havia preocupação com a possibilidade de novos surtos da doença e com a pressão sobre os sistemas de saúde, fatores capazes de retardar a retomada.
No Paraguai, o impacto inicial da pandemia foi menos severo do que se temia. Mesmo assim, o país registrou retração econômica em 2020, após um crescimento estagnado em 2019. A resposta do governo incluiu medidas fiscais e monetárias voltadas à mitigação dos efeitos da crise, como a Lei de Emergência Econômica, que destinou cerca de US$ 1,6 bilhão ao fortalecimento da proteção social e ao apoio a setores vulneráveis.
O plano de revitalização econômica anunciado pelo governo paraguaio apostava em investimentos em infraestrutura, modernização do sistema tributário e programas de assistência social e econômica. O objetivo era criar condições para uma recuperação mais robusta nos anos seguintes, fortalecendo ao mesmo tempo a competitividade e a estabilidade institucional do país.
Na Colômbia e em outras economias da região, especialistas do mercado segurador chamavam atenção para um obstáculo estrutural que a pandemia havia tornado ainda mais evidente: a fragilidade institucional e o elevado nível de informalidade no mercado de trabalho. Esses fatores, combinados ao espaço fiscal limitado dos governos, dificultavam a implementação de políticas anticíclicas mais amplas.
A informalidade, em particular, tornava mais complexa a distribuição de auxílios e a proteção social em momentos de crise, ampliando os efeitos econômicos e sociais da pandemia. Por isso, muitos analistas acreditavam que a América Latina levaria mais tempo do que outras regiões do mundo para recuperar plenamente sua capacidade de crescimento.
O papel do seguro na reconstrução econômica
Mesmo diante dessas dificuldades, o setor segurador latino-americano via na reconstrução pós-pandemia uma oportunidade para fortalecer sua relevância econômica e social. A crise sanitária escancarou a importância da gestão de riscos, da proteção financeira e da resiliência institucional — elementos centrais para o desenvolvimento sustentável das economias.
Nesse contexto, a indústria de seguros passou a enxergar um papel ainda mais estratégico na proteção de empresas, famílias e governos diante de crises sistêmicas. A pandemia não apenas acelerou debates sobre cobertura de riscos extremos, saúde e proteção social, como também reforçou a necessidade de ampliar a cultura de seguros na região.
Os anos posteriores à crise foram, portanto, de reconstrução gradual. Entre incertezas sanitárias, desafios fiscais e transformações sociais profundas, os países da América Latina começaram a repavimentar o caminho do crescimento — um processo lento, desigual, mas carregado da expectativa de que a experiência da pandemia pudesse fortalecer as bases de uma economia mais resiliente e preparada para os desafios do futuro.
Linha do tempo da pandemia de Covid-19 no Brasil (2020–2023)
A pandemia de Covid-19 marcou profundamente a história recente do Brasil e do mundo. A crise sanitária alterou rotinas, pressionou sistemas de saúde, provocou impactos econômicos severos e acelerou mudanças em diversas áreas, da ciência à proteção social. A seguir, uma síntese cronológica dos principais marcos da pandemia no país.
2020 – O início da crise
- 3 de fevereiro de 2020 – O Ministério da Saúde declara Emergência de Saúde Pública de Importância Nacional (ESPIN), antes mesmo da confirmação de casos no país, como medida preventiva para preparar o sistema de saúde.
- 26 de fevereiro de 2020 – É confirmado o primeiro caso de Covid-19 no Brasil, em São Paulo, em um paciente que havia retornado da Itália.
- 11 de março de 2020 – A Organização Mundial da Saúde classifica a Covid-19 como pandemia, o que reforça medidas de contenção adotadas por governos ao redor do mundo.
- Março a abril de 2020 – Estados e municípios adotam medidas de distanciamento social, fechamento de escolas e restrições a atividades econômicas.
- Abril de 2020 – O governo federal cria o auxílio emergencial, destinado a trabalhadores informais e famílias vulneráveis, que chegaria a alcançar cerca de 68 milhões de brasileiros.
- Segundo semestre de 2020 – O país convive com sucessivas ondas de contágio enquanto se intensificam pesquisas e negociações internacionais para vacinas.
2021 – Vacinação e nova onda
- 17 de janeiro de 2021 – A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autoriza o uso emergencial das primeiras vacinas contra a Covid-19, dando início à campanha nacional de vacinação.
- Primeiro semestre de 2021 – O Brasil enfrenta uma segunda onda intensa da pandemia, com aumento expressivo de internações e óbitos.
- Segundo semestre de 2021 – O avanço da vacinação começa a reduzir casos graves e mortes, permitindo a retomada gradual de atividades econômicas e sociais.
2022 – Retomada gradual
- Ao longo de 2022 – A cobertura vacinal se amplia com doses de reforço, e grande parte das restrições sanitárias é progressivamente retirada.
Setores econômicos, especialmente serviços e turismo, começam um processo mais consistente de recuperação após dois anos de retração.
2023 – Transição para fase endêmica
- 5 de maio de 2023 – A Organização Mundial da Saúde anuncia o fim da Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional, encerrando o mais alto nível de alerta global iniciado em 2020.
A Covid-19 passa a ser tratada como uma doença respiratória monitorada, ainda presente, mas sem o caráter emergencial global.
A pandemia deixou marcas profundas na economia e na organização social. Na América Latina, provocou uma das maiores retrações econômicas da história recente e evidenciou desafios estruturais, como informalidade no mercado de trabalho e limitações fiscais dos governos. Ao mesmo tempo, acelerou transformações em áreas como digitalização, políticas de proteção social e gestão de riscos - temas que passaram a ganhar maior relevância também para o setor segurador.
Fonte: CNseg | Notícias do Seguro