Guerra no Golfo eleva custos de seguro marítimo, encarece fretes e ameaça cadeias globais

Escalada do conflito entre Estados Unidos, Israel e Irâ afeta rotas marítimas, preços do petróleo, mercado de fertilizantes e logística global

  • A escalada do conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã começa a produzir efeitos concretos sobre o comércio internacional. O aumento dos ataques na região do Golfo Pérsico levou seguradoras marítimas a elevar drasticamente os prêmios de cobertura contra riscos de guerra, provocou danos a petroleiros e reduziu o tráfego de embarcações no Estreito de Ormuz, uma das rotas energéticas mais estratégicas do planeta.
  • As consequências já aparecem em várias frentes: fretes marítimos em alta, preços do petróleo ultrapassando US$ 100 por barril, incertezas no mercado global de fertilizantes e milhares de viajantes enfrentando limitações de cobertura em seguros de viagem.
  • Para setores altamente dependentes do comércio internacional - como energia, transporte marítimo e agronegócio - a crise começa a redefinir riscos e custos em escala global.

Navegação sob risco no Golfo Pérsico

A situação na região deteriorou rapidamente após os ataques militares iniciados no início de março por Estados Unidos e Israel e a resposta retaliatória do Irã.

Dados de monitoramento marítimo indicam que dezenas de embarcações permaneceram ancoradas nas proximidades do Estreito de Ormuz, aguardando condições mais seguras para atravessar a região.

A interrupção é particularmente sensível porque o estreito responde por uma parcela significativa do fluxo energético global. Por ali passam diariamente embarcações transportando petróleo equivalente a cerca de um quinto da demanda mundial, provenientes de países como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Iraque, Irã e Kuwait.

Nos últimos dias, o conflito ganhou novas dimensões. Informações de centros internacionais de monitoramento marítimo indicam que ao menos 19 embarcações comerciais já foram danificadas desde o início da escalada militar, ampliando o temor de ataques contra navios mercantes.

Seguros Marítimos disparam com risco de guerra

O aumento da tensão geopolítica provocou uma reação imediata no mercado de seguros marítimos.

Seguradoras especializadas passaram a revisar as condições de cobertura contra riscos de guerra em toda a região do Golfo Pérsico e áreas marítimas adjacentes.

Em alguns casos, as coberturas passaram a exigir prêmios muito mais elevados. Taxas que antes giravam em torno de 0,25% do valor do navio chegaram a até 3%, elevando o custo de cada viagem em milhões de dólares.

Apesar da escalada de risco, o seguro não desapareceu totalmente. Mercados tradicionais, como o Lloyd’s de Londres, continuam oferecendo cobertura para navios que transitam pela região, mas com condições mais restritivas e preços muito mais altos.

Segundo Dylan Mortimer, líder de operações navais da consultoria Marsh no Reino Unido, o principal risco envolve a possibilidade de abordagens ou apreensão de embarcações por forças iranianas e até mesmo o fechamento do Estreito de Ormuz.

“Ainda é cedo para conclusões definitivas, mas o aumento do risco pode ter impacto significativo nas taxas de seguro de guerra e nas decisões de navegação das empresas”, afirma.

Com o aumento da presença militar na região, tripulações e armadores operam sob níveis de preocupação raramente vistos desde crises anteriores no Golfo.

Petróleo mais caro e fretes recordes

A instabilidade na região também já impacta os mercados de energia.

O barril do petróleo Brent voltou a ultrapassar US$ 100, refletindo o temor de interrupções prolongadas no fornecimento global.

Paralelamente, o custo do transporte marítimo de petróleo disparou.

As tarifas de frete spot para petroleiros que transportam petróleo do Oriente Médio para a Ásia - conhecidas como rota TD3C - já vinham subindo desde o início do ano e avançaram ainda mais com a escalada do conflito.

Segundo corretores marítimos, o índice praticamente triplicou desde o início de 2026.

O preço à vista para o afretamento de um superpetroleiro na rota entre Oriente Médio e China chegou a cerca de Worldscale 225, o equivalente a aproximadamente US$ 12 milhões por viagem.

Para Emril Jamil, analista da LSEG, a tendência é que os fretes permaneçam elevados.

“As tarifas já estavam subindo exponencialmente antes dos ataques e devem continuar pressionadas enquanto os países tentam garantir o suprimento energético”, afirma.

Com a insegurança na região, alguns armadores começam a evitar o Golfo Pérsico, reduzindo a oferta de navios disponíveis e pressionando ainda mais os preços.

Seguro Viagem expõe limites em situações de guerra

A crise também revelou um aspecto pouco conhecido do mercado de seguros de viagem.

Com o fechamento temporário de aeroportos no Golfo, incluindo o importante hub internacional de Dubai - milhares de voos foram cancelados, interrompendo um dos principais corredores de transporte aéreo de longa distância.

Centenas de milhares de passageiros tiveram de reorganizar seus itinerários, muitas vezes pagando valores elevados por novas passagens e hospedagens.

Nesse contexto, muitos viajantes descobriram que seus seguros de viagem não cobrem despesas diretamente relacionadas a guerras ou conflitos armados.

Seguradoras internacionais como Allianz e Zurich informaram que suas apólices padrão incluem essa exclusão.

Segundo especialistas, trata-se de uma prática praticamente universal no setor.

“Quando se trata de guerra, essa é basicamente uma exclusão geral em todas as apólices de seguro de viagem”, afirma Jodi Bird, especialista do grupo australiano de defesa do consumidor Choice.

A razão é que conflitos armados geram riscos imprevisíveis e difíceis de precificar.

Algumas seguradoras informaram que estenderão temporariamente a validade das apólices para clientes que iniciaram a viagem antes da escalada do conflito, mas os custos adicionais diretamente ligados à guerra permanecem fora da cobertura.

Fertilizantes e agronegócio entram no radar

O conflito também acendeu um alerta em outra cadeia estratégica: a produção global de fertilizantes.

O Oriente Médio tem peso relevante nesse mercado. Em 2024, a região respondeu por:

  • 41% das exportações globais de ureia
  • 28% das vendas internacionais de amônia
  • 29% do comércio mundial de fosfato diamônico (DAP)

Segundo a consultoria StoneX, fornecedores da região suspenderam temporariamente novas ofertas enquanto aguardam maior clareza sobre o cenário geopolítico.

Além da produção, a logística preocupa.

Navios têm evitado cruzar o Estreito de Ormuz, rota importante para o escoamento de fertilizantes produzidos na região.

O Irã, no centro do conflito, respondeu por 11% das exportações globais de ureia e 5% das vendas internacionais de amônia.

Impactos potenciais para o Brasil

Para o Brasil, altamente dependente de fertilizantes importados, a situação exige atenção.

Estimativas indicam que o país comprou cerca de 1,3 milhão de toneladas de ureia iraniana em 2024, o equivalente a aproximadamente 16% das importações brasileiras do produto.

A guerra também levanta dúvidas sobre o comércio entre o Brasil e o Oriente Médio.

Em 2025, o país exportou US$ 12,4 bilhões em produtos agrícolas para a região, com destaque para:

  • carne de frango
  • milho
  • açúcar
  • carne bovina
  • soja

O Irã foi o principal destino, respondendo por US$ 2,9 bilhões em compras brasileiras.

A região também absorve cerca de 29% das exportações brasileiras de carne de frango, consolidando-se como um dos principais mercados para o agronegócio nacional.

Caso a guerra provoque interrupções logísticas prolongadas ou sanções comerciais adicionais, esses fluxos podem ser afetados.

Uma crise com alcance global

Além do Estreito de Ormuz, analistas monitoram também a situação no estreito de Bab el-Mandeb, passagem estratégica para o Canal de Suez e rota essencial para o transporte entre Ásia e Europa.

A instabilidade nessas rotas tende a elevar prêmios de seguro marítimo, aumentar custos de transporte e pressionar cadeias globais de suprimentos.

Embora ainda seja cedo para estimar a duração da crise, analistas concordam que a combinação de riscos energéticos, logísticos e geopolíticos pode gerar efeitos amplos na economia mundial.

O aumento dos custos de energia, transporte e insumos agrícolas tende a se espalhar rapidamente pelas cadeias produtivas, pressionando preços e ampliando a volatilidade nos mercados.

Fonte: CNseg | Notícias do Seguro