Caminhões: acidentes superam roubos e redesenham o mapa de riscos no transporte de cargas
Sinistros recentes reforçam mudança estrutural no setor e ampliam o papel do seguro na prevenção.
Pelo menos quatro acidentes graves nas últimas semanas reforçam uma mudança importante no transporte rodoviário de cargas no Brasil: os acidentes com caminhões já superam os roubos como principal fonte de risco operacional para transportadoras e seguradoras.
Levantamentos recentes indicam que, em 2024, o número de ocorrências com veículos de carga nas estradas brasileiras foi cerca de 4,5 vezes maior do que os casos de roubo de carga, com os acidentes respondendo por mais de 60% dos prejuízos às mercadorias.
O movimento, destacado em reportagem da Revista de Seguros, confirma uma transformação estrutural no setor - tanto em frequência quanto em impacto dos sinistros.
Acidentes mais frequentes e com efeitos em cadeia
Embora os roubos ainda concentrem indenizações elevadas e sigam na agenda de segurança pública, os acidentes passaram a dominar o cenário de risco por um motivo simples: eles acontecem mais e geram efeitos em cadeia. Em 2024, dados da Pamcary mostram que, a cada 10 mil viagens, ocorreram em média 2,36 acidentes de transporte contra 0,53 ocorrências de roubo de carga. A mesma análise aponta que 62% dos prejuízos à carga no transporte rodoviário tiveram origem em acidentes, e não em roubos, o que altera o foco da gestão de risco.
Além das perdas de carga, os acidentes com caminhões provocam danos a terceiros, interrupção de serviços essenciais (como energia elétrica e abastecimento), bloqueios logísticos que travam rodovias estratégicas e disputas judiciais complexas envolvendo múltiplos responsáveis. A Confederação Nacional do Transporte (CNT) estima que os custos com acidentes e mortes nas rodovias federais envolvendo veículos de carga chegaram a cerca de R$ 5,1 bilhões em 2024, contra aproximadamente R$ 1,2 bilhão em prejuízos com roubos de carga.
Casos recentes reforçam o alerta
Os últimos dias registraram episódios graves em diferentes regiões do país, ilustrando o padrão de alta severidade. Nas rodovias federais, apenas no feriado de Tiradentes, a Polícia Rodoviária Federal contabilizou mais de mil sinistros, com dezenas de mortes. Entre os casos mais recentes:
Na BR‑116, em Campina Grande do Sul (PR), um caminhão caiu na represa do Capivari, causando dois óbitos.
Durante o feriado, foram registradas 1.022 ocorrências em rodovias federais, com 14 mortes nos casos mais graves.
- Em Formosa (GO), colisão envolvendo caminhão deixou oito mortos.
- Em Salinas (MG), seis pessoas morreram em acidente na BR‑251.
- Na Via Dutra, um caminhão com gás tombou e explodiu, atingindo outros veículos e causando cinco mortes.
O padrão se repete: acidentes de grande impacto, com múltiplas vítimas, danos ambientais e materiais relevantes, interdições prolongadas de pista e repercussões reputacionais para transportadoras e embarcadores.
O impacto regulatório: seguro como ferramenta de gestão de risco
Esse novo cenário levou a mudanças importantes na regulação do transporte de cargas. A Lei nº 14.599/2023 atualizou o Marco Regulatório do Transporte Rodoviário de Cargas e tornou obrigatória a contratação de seguros específicos de responsabilidade civil e de desvio de carga pelos transportadores, vinculando essas apólices a um Plano de Gerenciamento de Riscos (PGR). Entre os seguros de contratação obrigatória, a lei destaca:
- RCTR‑C (Responsabilidade Civil do Transportador Rodoviário de Carga) – cobre perdas ou danos à carga em consequência de acidentes com o veículo transportador, como colisão, tombamento, incêndio ou explosão.
- Seguros específicos para roubo, furto e desaparecimento de carga, também vinculados ao PGR, com diretrizes de prevenção e controle mais rígidas.
Na prática, o seguro deixa de ser visto apenas como instrumento de indenização pós‑sinistro e passa a integrar a gestão e a prevenção de acidentes. A lei determina que os seguros obrigatórios estejam alinhados ao PGR, o que significa que seguradoras e transportadoras devem seguir protocolos estruturados de prevenção de perdas, monitoramento de rotas, capacitação de motoristas e manutenção de veículos. A fiscalização do cumprimento dessas exigências envolve órgãos como a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) e a Superintendência de Seguros Privados (Susep), em articulação com entidades setoriais.
Por que os acidentes aumentaram
Segundo especialistas do setor segurador e de transporte, o aumento dos acidentes não tem uma causa única. Trata‑se de uma combinação de fatores:
- Infraestrutura rodoviária precária, com trechos sem acostamento, sinalização deficiente e falta de manutenção.
- Frota envelhecida, com caminhões em média mais antigos, exigindo mais manutenção e com menos tecnologia embarcada de segurança.
- Escassez de motoristas qualificados, levando a jornadas extensas, fadiga e maior probabilidade de erro humano.
- Eventos climáticos extremos, como chuvas intensas, alagamentos e deslizamentos, que elevam o risco operacional e exigem planejamento mais sofisticado.
Estudos da CNT sobre acidentes em rodovias apontam que os custos associados a acidentes com veículos de carga, considerando danos materiais, vítimas, congestionamentos e impactos econômicos indiretos - são mais de quatro vezes superiores aos prejuízos estimados com roubos de carga, reforçando a mudança de foco na matriz de risco.
Frota envelhecida agrava o risco
Um dos pontos críticos é a idade da frota de caminhões. Nos últimos anos, a idade média dos veículos de carga no Brasil está na casa de 11 a 12 anos, acima do ideal para padrões internacionais de segurança e eficiência. Caminhões mais antigos tendem a apresentar:
Menor nível de segurança ativa e passiva (frenagem, controle de estabilidade, sistemas de assistência ao motorista).
Maior frequência de falhas mecânicas, que podem resultar em acidentes.
Menor eficiência operacional, com consumo maior de combustível e maior emissão de poluentes.
Impacto direto no custo do seguro, por aumento da probabilidade de sinistros e gravidade potencial.
Para enfrentar esse quadro, o programa Move Brasil foi desenhado com financiamento via BNDES e metas ligadas à eficiência e descarbonização do transporte, incentivando a renovação de frota e a adoção de veículos mais modernos e menos poluentes. Ainda assim, a adesão ao programa é limitada diante do tamanho total da frota nacional e das condições econômicas de muitos transportadores autônomos e pequenas empresas, o que mantém o desafio da frota envelhecida como um ponto sensível do risco.
Infraestrutura: o ponto que ainda trava a mudança
Mesmo com avanços regulatórios, tecnológicos e de gestão de risco, o setor enfrenta um gargalo estrutural: a qualidade das rodovias. Levantamentos da CNT sobre o estado das estradas brasileiras mostram que uma parcela significativa da malha apresenta problemas de pavimento, sinalização e geometria, o que impacta diretamente a segurança viária.
Entre os principais desafios:
- Conservação e manutenção periódica das vias.
- Sinalização horizontal e vertical adequada, especialmente em trechos críticos.
- Presença de acostamentos e áreas de escape.
- Escassez de pontos de parada seguros para descanso de motoristas, o que incentiva jornadas excessivas.
Sem endereçar esses pontos, os ganhos trazidos por PGR, novas tecnologias de monitoramento e renovação de frota tendem a ser parcialmente limitados, pois parte relevante do risco ainda está “no asfalto”.
O que está em jogo para o seguro
O novo cenário muda o papel do seguro no transporte de cargas em pelo menos três frentes:
- Indenização de perdas – continua sendo a função clássica: cobrir danos à carga, ao veículo e a terceiros, além de garantir continuidade financeira para transportadores e embarcadores após eventos graves.
- Gestão de risco via PGR – seguradoras passam a atuar de forma mais ativa na definição de rotas, critérios de manutenção, treinamento de motoristas e uso de tecnologia embarcada, alinhando o seguro a práticas de prevenção.
- Incentivo à prevenção – políticas de precificação e condições de cobertura tendem a favorecer empresas com boa gestão de risco, frota mais nova, adesão a programas de segurança e uso de telemetria, criando incentivo econômico para a redução de acidentes.
O foco deixa de ser apenas “pagar o sinistro” e passa, cada vez mais, a ser evitar que ele aconteça, com o seguro assumindo um papel estratégico na construção de um transporte de cargas mais seguro, eficiente e sustentável.
Fonte: CNseg | Notícias do Seguro