Pesquisa global expõe avanço de mortes no trabalho e déficit estrutural de fiscalização

Dados recentes acendem um alerta: a segurança no trabalho está piorando em escala global, enquanto a capacidade de fiscalização encolhe.

Esse cenário tem implicações diretas para o mercado de seguros, especialmente em coberturas ligadas a acidentes de trabalho, responsabilidade civil do empregador, seguro de vida em grupo e seguros empresariais, que passam a lidar com riscos mais complexos, frequentes e difíceis de monitorar apenas pela via regulatória.

Mais mortes, menos controle

Estatísticas consolidadas pela OIT estimam que quase 3 milhões de pessoas morreram em 2019 por causas relacionadas ao trabalho. Dessas mortes, cerca de 89% estão associadas a doenças ocupacionais (como doenças cardiovasculares, respiratórias, cânceres relacionados ao trabalho e transtornos mentais), e apenas 11% decorrem de acidentes típicos. No mesmo período, aproximadamente 395 milhões de trabalhadores sofreram lesões não fatais, evidenciando uma carga elevada de acidentes e adoecimentos com impacto econômico e social significativo.

A leitura técnica desses números mostra uma mudança de natureza do risco: o trabalho deixou de ser predominantemente perigoso por eventos episódicos (um acidente pontual) e passou a ser estruturalmente nocivo em muitos contextos, com efeitos cumulativos sobre a saúde ao longo do tempo. Isso pressiona tanto sistemas públicos (saúde e previdência) quanto o mercado segurador, que precisa precificar e gerir riscos de longa duração, muitas vezes associados a fatores psicossociais, ergonomia, exposição crônica e organização do trabalho.

Jornada excessiva como fator de risco central

Uma pesquisa conjunta da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da OIT mostrou que as jornadas excessivas de trabalho são o principal fator de risco ocupacional em termos de mortalidade global, respondendo por mais de 39% das mortes relacionadas ao trabalho em 2016, especialmente por AVC e doenças isquêmicas do coração. Em outras palavras, não é apenas o ambiente físico que mata; é a forma como o trabalho é organizado – horas a mais, pressão constante, metas agressivas, falta de pausas e de recuperação.​

Essa mudança coloca em evidência riscos que tradicionalmente não eram o foco dos seguros ligados ao trabalho, como doenças cardiovasculares e transtornos mentais associados ao estresse ocupacional. Do ponto de vista segurador, isso amplia a relevância de coberturas como invalidez por doença, diárias por incapacidade temporária e danos morais em ações de responsabilidade civil do empregador, além de exigir modelos de subscrição mais sensíveis a fatores organizacionais e não apenas físicos.

Segurança e saúde como direito fundamental

A gravidade do cenário levou a uma mudança importante no plano internacional. Em 2022, a Conferência Internacional do Trabalho incluiu a segurança e saúde no trabalho no rol dos Princípios e Direitos Fundamentais no Trabalho da OIT, ao lado da erradicação do trabalho infantil, da eliminação do trabalho forçado e da não discriminação. Isso significa que segurança e saúde deixaram de ser apenas um requisito regulatório ou um “custo de conformidade” e passaram a ser reconhecidas como direito essencial, com implicações para políticas públicas, Judiciário, negociações coletivas e, por consequência, para a responsabilidade das empresas.

No Brasil, a atualização de normas como a NR‑1, que reforça a gestão de riscos e amplia o foco em riscos psicossociais, vem na mesma direção, tornando o ambiente regulatório mais rigoroso e aumentando o potencial de responsabilização das empresas por acidentes e doenças ocupacionais. Nesse contexto, seguros de Responsabilidade Civil do Empregador (RC Empregador) ganham relevância como ferramenta de mitigação financeira diante do aumento de ações trabalhistas relacionadas a acidentes, doenças ocupacionais e danos morais.

Fiscalização em declínio: um vácuo que o seguro sente

Enquanto os riscos aumentam e se sofisticam, a capacidade de resposta estatal segue em trajetória oposta. Análise da OIT com dados de 78 países mostra que:

  • Em nenhum país o número de inspetores supera 4 por 10 mil trabalhadores.
  • Em metade dos países, o índice é inferior a 0,58 por 10 mil.
  • A mediana é de 0,84 em países de alta renda, 0,41 em renda média‑alta e 0,47 em renda média‑baixa/baixa.​
  • Além disso, 43% dos países reduziram o número de inspetores entre 2009 e 2022, em grande parte por políticas de austeridade e falta de reposição de quadros, mesmo com crescimento do emprego e maior complexidade do trabalho. O resultado é menos presença do Estado justamente quando o mundo do trabalho se torna mais fragmentado, digitalizado e difícil de monitorar.

Para o mercado de seguros, isso significa operar em um ambiente em que a fiscalização pública não consegue, sozinha, induzir padrões mínimos de segurança. Seguradoras passam a usar mecanismos próprios – como exigências de gestão de riscos, auditorias, incentivos de preço, programas de prevenção e uso de tecnologia (apps, telemetria, wearables) – para tentar reduzir sinistros em carteiras empresariais, de saúde ocupacional e de vida em grupo.

Complexidade crescente do mundo do trabalho

Os inspetores e as empresas se deparam com uma realidade muito mais complexa do que há duas décadas. A OIT destaca desafios como:

  • Informalidade persistente e economia de plataforma.
  • Teletrabalho e modelos híbridos, em que o “local de trabalho” se espalha por casas, co‑workings e espaços informais.
  • Terceirização e contratos atípicos, com cadeias produtivas mais fragmentadas e responsabilidades compartilhadas.
  • Setores inteiros com baixa presença de fiscalização, como trabalho doméstico, cuidados e serviços em domicílio.

A pesquisadora Rosina Gammarano (OIT) observa que o trabalho exige hoje formação especializada contínua dos inspetores, que precisam lidar com riscos físicos, químicos, biológicos, ergonômicos e psicossociais em contextos cada vez mais diversos. Ao mesmo tempo, barreiras operacionais – exigência de aviso prévio, limitação de visitas, exclusão de certos setores e restrições legais – reduzem a eficácia preventiva das inspeções.​

Seguradoras, por sua vez, também se veem obrigadas a atualizar modelos de risco, pois o “local de trabalho” tradicional (fábrica, canteiro de obras, escritório fixo) convive com realidades em que os riscos se distribuem entre casa, rua e ambiente digital. Isso impacta coberturas como seguro empresarial, vida em grupo e responsabilidade civil, que passam a considerar cenários antes pouco explorados, como ataques cibernéticos com dano psicológico, burnout associado a metas e conectividade permanente, e acidentes em home office.

Gênero e invisibilidade de riscos

Embora a média global mostre que 46% dos inspetores de trabalho são mulheres, as pesquisas indicam que os riscos enfrentados por trabalhadoras continuam subestimados. Isso acontece porque:​

  • Normas e referências históricas foram construídas com foco em setores tradicionalmente masculinos, como indústria pesada e construção.
  • Setores com maior presença feminina – cuidados, trabalho doméstico, saúde, educação, serviços pessoais – são mais difíceis de fiscalizar e, muitas vezes, menos cobertos por inspeção formal.
  • Há maior exposição a riscos psicológicos, violência, assédio e sobrecarga de trabalho não remunerado, que nem sempre aparecem nas estatísticas clássicas de acidentes.

Essa invisibilidade também se reflete na oferta de produtos e na precificação, embora a tendência recente seja de maior atenção de seguradoras a riscos psicossociais, saúde mental e coberturas específicas para mulheres, incluindo programas de prevenção, benefícios em vida e serviços associados (telemedicina, apoio psicológico, gestão de crônicos).

Muitas visitas, pouca cobertura

Mesmo quando a fiscalização ocorre, seu alcance é limitado. Dados da OIT mostram que:

  • Em média, inspetores fazem mais de 86 visitas por ano, o que indica alta carga de trabalho.
  • Em 87% dos países analisados, o número de inspeções não cobre todos os estabelecimentos.
  • Em 71%, as inspeções não chegam sequer à metade das unidades produtivas.​

A tecnologia surge como alternativa promissora – monitoramento remoto, uso de dados e IA para identificar prioridades, plataformas de denúncia, análise de padrões de acidentes –, mas sua adoção ainda é desigual entre países e setores. No mercado segurador, esse movimento é mais acelerado: seguradoras vêm usando analytics, telemetria e wearables para monitorar comportamentos de risco, tanto em seguros de saúde e vida quanto em seguros empresariais e de responsabilidade civil, reduzindo sinistralidade em alguns casos em até 25%.

Brasil: tendência de alta e lacunas estruturais

No Brasil, os dados seguem a mesma direção de alerta. Informações compiladas a partir do eSocial e do Ministério do Trabalho e Emprego indicam 499.955 acidentes de trabalho e 2.888 mortes em 2023, com uma trajetória de alta em relação a anos anteriores. Em 2024, até junho, já haviam sido registrados 268.788 acidentes e 1.016 mortes, mantendo uma média mensal elevada.

Pesquisas setoriais apontam que:

  • Há forte subnotificação, especialmente em trabalhadores informais e em pequenas empresas.
  • Jovens até 34 anos concentram parcela relevante das mortes, refletindo ingresso em setores de maior risco sem a devida formação em segurança.
  • Muitos acidentes ainda decorrem de falhas básicas, como uso inadequado ou ausência de EPIs, falta de guarda de máquinas e erros em procedimentos de trabalho.
  • Setores críticos incluem construção, transporte, saúde e agronegócio, que respondem por grande volume de notificações e de gravidade.

Do ponto de vista do mercado segurador, a CNseg destaca que o setor tem histórico de atuação em seguros ligados ao trabalho – como responsabilidade civil, seguros empresariais, vida em grupo e seguros de acidentes pessoais –, mas o monopólio previdenciário no seguro de acidentes do trabalho ainda limita o desenvolvimento pleno de soluções privadas complementares. Mesmo assim, produtos como Seguro Empresarial (com coberturas para danos a empregados e assistência jurídica) e RC Empregador vêm ganhando espaço como camadas adicionais de proteção.

O papel dos seguros neste novo cenário

A síntese dos estudos da OIT e da OMS é clara: o risco ocupacional está mudando de natureza, a fiscalização estatal está enfraquecida e a complexidade do trabalho aumentou. Nesse contexto, o mercado de seguros passa a atuar em três dimensões complementares:

  • Transferência de risco: indenizar acidentes, doenças ocupacionais e responsabilidades civis, protegendo o caixa das empresas e as famílias dos trabalhadores (vida em grupo, RC Empregador, seguros empresariais, acidentes pessoais).
  • Gestão e prevenção: exigir planos de gestão de riscos, programas de saúde ocupacional, uso de tecnologia (wearables, telemetria, apps), protocolos de ergonomia e saúde mental como condição para melhores condições de seguro.
  • Indução de boas práticas: premiar, via preço e coberturas, empresas que demonstram menor sinistralidade, programas robustos de SST e cultura preventiva consolidada.

A CNseg lembra que “o setor segurador está pronto para atuar no seguro de acidentes do trabalho, desde que haja o fim do monopólio”, e que já existem modalidades – como responsabilidade civil com cobertura para indenizar trabalhadores e familiares – que ajudam a reduzir o drama das vítimas de acidentes ocupacionais. Em um mundo em que o direito a um ambiente de trabalho seguro passa a ser fundamental, seguradoras deixam de ser apenas pagadoras de sinistros e tornam‑se parceiras na construção de ambientes mais seguros, saudáveis e sustentáveis.​

Fonte: CNseg | Notícias do Seguro