Gap de proteção de seguros preocupa perante formação de novo El Niño


As chuvas intensas esperadas no Sul, em virtude do El Niño, também servirão para testar o déficit de proteção securitária no Estado. No evento de 2024, as perdas econômicas causadas pelas enxurradas ultrapassaram R$ 100 bilhões, cabendo ao mercado segurador arcar com cerca de R$ 6 bilhões dos prejuízos totais. “Esse dinheiro representou muito mais do que reposição de bens: foi a diferença entre recomeçar e não conseguir”, afirma Ederson Daronco, presidente do SindsegRS.

Ainda assim, ele reconhece que o mercado precisa aprimorar sua comunicação com as pessoas. “A linguagem do seguro continua distante do cotidiano de quem mais precisaria estar protegido. A leitura de uma apólice segue complicada. As crises já demonstraram o quanto o seguro importa, mas a realidade não se modificou. O seguro precisa chegar antes da catástrofe, não depois”, assinala.

Diante de um cenário de nova formação de El Niño, contexto que corrobora a ocorrência de eventos meteorológicos semelhantes aos que resultaram nas enchentes de 2023 e 2024, Ederson Daronco afirma que o fortalecimento da cultura do seguro não é apenas uma opção, “é necessário para o contínuo desenvolvimento do Rio Grande do Sul. O futuro climático que nos espera não dá margem para improviso”.

O que dizem os números do mercado segurador?

Dados da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg) mostram que a arrecadação no Rio Grande do Sul totalizou R$ 7,3 bilhões (excluindo saúde) no acumulado até março de 2026, com queda de 0,5% em relação ao mesmo período de 2025. Considerando os dados acumulados no ano, o Estado responde por 7% do market share de seguros, previdência e capitalização.

Em 2024, ano das enchentes no Estado, as indenizações, os benefícios, os resgates e os sorteios anuais totalizaram R$ 13,1 bilhões, alta de 136,3% em relação a 2023. A arrecadação no Estado foi de R$ 31,1 bilhões, com avanço de 5,7% sobre o ano imediatamente anterior.

No ano passado, foram arrecadados R$ 29,3 bilhões, o que representa queda de 6% no RS, ao passo que os repasses das seguradoras aos clientes por sinistros, benefícios, resgates e sorteios somaram R$ 9,8 bilhões, queda de 25,6%. 

Em 2025, a retração no Rio Grande do Sul foi puxada pela desaceleração em duas carteiras relevantes — previdência e seguro rural. Esse recuo, aliás, ganhou escala nacional.

No caso da previdência, a cobrança de IOF afastou os consumidores gaúchos; no Seguro Rural, o bloqueio de R$ 445,1 milhões do orçamento do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) em 2025 — um corte de cerca de 42% do valor inicialmente previsto — também afetou o acesso à proteção das lavouras no estado.

A arrecadação do VGBL, plano afetado pela incidência do IOF, recuou 24% no estado, fechando o ano com receita de R$ 9,1 bilhões. No seguro rural, a arrecadação caiu 8,5% na variação anual, totalizando R$ 2 bilhões.

Ainda assim, o comportamento dos gaúchos indica que os cuidados com a prevenção não foram relaxados. Prova disso é a alta de 3,2% na arrecadação dos seguros de Danos e Responsabilidade, que chegou a R$ 9,9 bilhões. Modalidades voltadas à proteção de bens e patrimônios, como automóvel e residência, estão entre os produtos dessa linha.

O seguro de automóvel gerou receitas de R$ 4,3 bilhões, com alta de 5,5% no ano. Já o seguro residencial somou R$ 637,6 milhões, com crescimento de 9,7%.

Apesar da expansão de quase 10%, o presidente do Sindicato dos Corretores do Rio Grande do Sul (Sincor-RS), André Thozeski, avalia que o desempenho do seguro residencial poderia ser ainda maior com a ampliação das coberturas básicas, especialmente para eventos como alagamentos, enchentes e inundações.

Segundo ele, a percepção de consumidores e corretores é de que riscos capazes de comprometer integralmente o patrimônio das famílias deveriam ser contemplados de forma plena nas coberturas básicas. “Consumidores e corretores continuam esperando que as seguradoras precifiquem e incluam, na cobertura básica — que já cobre incêndio, explosão, queda de raio, entre outros —, as coberturas para alagamento, enchente e inundação. Os produtos ofertados não atendem à necessidade de proteção demandada pela sociedade.”

Para o Sincor-RS, há espaço para que o setor segurador amplie sua contribuição na proteção patrimonial, especialmente diante do aumento da frequência de eventos climáticos severos no país.

Fonte: CNseg | Notícias do Seguro