São Paulo entra no mapa das catástrofes climáticas com risco bilionário por alagamentos e inundações


Pesquisa da Guy Carpenter e da Oliver Wyman para o Sindseg SP mostra que a capital paulista combina alta exposição a alagamentos e inundações com riscos em cadeia sobre moradias, comércio, transporte, saúde, educação, arrecadação pública e população vulnerável

São Paulo está exposta a riscos climáticos com potencial catastrófico. Um estudo realizado pela Guy Carpenter e pela Oliver Wyman para o Sindseg SP, apresentado em 12 de junho, em São Paulo, indica que, em um cenário extremo de alagamento e inundação, as perdas na capital paulista podem chegar a R$ 2,9 bilhões em ativos e residências.

O levantamento mostra que eventos climáticos extremos já não podem ser tratados apenas como episódios isolados ou transtornos urbanos recorrentes. Em uma cidade onde moradia, transporte, serviços públicos, hospitais, escolas, comércio, infraestrutura e arrecadação funcionam de forma interdependente, alagamentos e inundações representam um risco sistêmico, capaz de afetar simultaneamente a vida da população, a atividade econômica e a capacidade de resposta da cidade.

O cenário considerado pela pesquisa tem período de retorno de 100 anos e é equivalente, em magnitude, ao evento registrado no Rio Grande do Sul em 2024, segundo a análise da Guy Carpenter. Além das perdas materiais estimadas em R$ 2,9 bilhões, o estudo aponta impacto de R$ 1,1 milhão por dia em tributos de ICMS e ISS em caso de interrupção de atividades em zonas comerciais e industriais.

A dimensão social do risco também chama atenção. De acordo com o levantamento, uma em cada dez pessoas que vivem em habitações vulneráveis está exposta a risco alto ou superior quando considerados os principais perigos climáticos analisados. Em áreas classificadas como de risco alto, muito alto ou extremo para inundação fluvial, estão localizados 103,6 mil alunos, 102,8 mil pessoas em situação de vulnerabilidade social, 22,4 mil vagas de assistência social, 1,3 mil leitos hospitalares e 32 estações de trem e metrô.

O que o estudo sobre riscos climáticos em São Paulo avaliou?

A pesquisa avaliou a exposição da capital paulista aos principais riscos climáticos físicos. Entre os riscos analisados estão inundação fluvial, inundação pluvial, incêndio florestal, granizo e vendaval. O objetivo foi identificar como esses eventos podem afetar ativos, pessoas, serviços essenciais, infraestrutura urbana e atividade econômica.

Mais do que apontar áreas sujeitas a enchentes, o estudo propõe uma leitura integrada da cidade. Para isso, São Paulo foi dividida em grids de 1 km², permitindo uma visão territorial detalhada dos riscos e de seus possíveis impactos. Essa abordagem ajuda a identificar onde os riscos climáticos se concentram e como eles se cruzam com diferentes dimensões da vida urbana.

A análise cruza os riscos climáticos com cinco pilares estratégicos: infraestrutura social, atividade econômica, mobilidade, vulnerabilidade social e serviços urbanos. Com isso, o estudo não mede apenas a possibilidade de alagamento ou inundação, mas também os efeitos potenciais desses eventos sobre escolas, hospitais, transporte público, comércio, arrecadação, população vulnerável e infraestrutura crítica.

Por que alagamentos e inundações são os principais riscos climáticos para São Paulo?

Entre os riscos analisados, a inundação fluvial aparece como o principal fator de exposição. Ela concentra cerca de 76% dos riscos classificados como alto, muito alto ou extremo. A apresentação também aponta que os riscos mais impactantes para a cidade são os de inundação e alagamento, enquanto a exposição a vendaval é baixa e a de granizo, moderada.

Essa concentração torna alagamentos e inundações uma prioridade para a gestão de riscos urbanos. Em uma metrópole como São Paulo, a ocorrência de eventos extremos não afeta apenas imóveis ou ruas alagadas. Uma inundação severa pode interromper deslocamentos, comprometer atendimentos de saúde, afetar aulas, reduzir a atividade econômica, pressionar serviços públicos e atingir com mais força territórios socialmente vulneráveis.

O estudo mostra que o risco climático urbano não se distribui de forma homogênea. Algumas regiões concentram maior exposição econômica; outras, maior vulnerabilidade social; e outras combinam infraestrutura crítica, mobilidade e serviços essenciais. Por isso, a modelagem territorial em grids de 1 km² ajuda a transformar o risco climático em informação útil para planejamento, prevenção, seguros e políticas públicas.

Quais áreas e serviços podem ser afetados por eventos extremos?

A pesquisa organiza a cidade em cinco pilares estratégicos. No pilar de infraestrutura social, considera escolas, alunos, hospitais, leitos e áreas verdes. No de atividade econômica, observa zonas comerciais e industriais, CNPJs e impacto potencial sobre tributos. Em mobilidade, entram rodovias, terminais de ônibus, corredores de ônibus, estações de trem e metrô e aeródromos públicos.

A vulnerabilidade social é analisada a partir de assentamentos informais, favelas, habitações sociais, população estimada e centros de apoio à assistência social. Já em serviços urbanos, a pesquisa inclui infraestruturas da administração pública e torres de alta tensão.

Esse desenho mostra que o risco climático urbano não afeta apenas imóveis, individualmente segurados ou não segurados. Ele pode atingir sistemas inteiros da cidade. Quando um evento extremo afeta transporte, saúde, educação, comércio e serviços públicos ao mesmo tempo, o dano direto é apenas uma parte do problema.

Em áreas de risco alto, muito alto ou extremo para inundação fluvial, o estudo identificou 103,6 mil alunos, 102,8 mil pessoas em situação de vulnerabilidade social, 22,4 mil vagas de assistência social, 1,3 mil leitos hospitalares e 32 estações de trem e metrô. Esses números evidenciam como o risco climático pode se transformar em risco social, econômico e operacional.

Como a pesquisa diferencia prioridade econômica e prioridade social?

Um dos pontos mais relevantes do estudo é a possibilidade de diferentes leituras de prioridade. Em uma visão geral, os cinco pilares estratégicos recebem o mesmo peso. Em outro recorte, o eixo econômico ganha peso maior, permitindo identificar áreas onde uma inundação poderia produzir impacto mais relevante sobre comércio, indústria e arrecadação. Em um terceiro recorte, o foco recai sobre a vulnerabilidade social, destacando regiões onde a exposição climática se soma a fragilidades habitacionais e sociais.

Essa distinção é importante porque mostra que a resposta ao risco climático depende da pergunta feita. Uma política pública voltada à proteção de infraestrutura crítica pode apontar prioridades diferentes de uma estratégia focada em reduzir perdas econômicas ou proteger populações vulneráveis.

Da mesma forma, o setor segurador pode usar esse tipo de informação para compreender melhor concentrações de risco, desenhar soluções de proteção financeira, avaliar exposição territorial e dialogar com governos sobre prevenção, adaptação e resiliência.

Em vez de tratar São Paulo como uma única área de risco, a pesquisa mostra que a cidade precisa ser observada em diferentes camadas. A prioridade pode mudar conforme o objetivo seja preservar serviços essenciais, reduzir perdas econômicas, proteger populações vulneráveis ou evitar interrupções em ativos sistêmicos.

Qual é o valor exposto a alagamentos e inundações na cidade de São Paulo?

A modelagem probabilística de alagamento e inundação indica que aproximadamente 3,3 milhões de residências e 379 mil estabelecimentos comerciais e industriais estão potencialmente expostos, representando mais de R$ 1,5 trilhão em ativos.

O estudo também apresenta estimativas por período de retorno, com cenários de 1 em 20, 1 em 100, 1 em 250 e 1 em 500 anos. Essa abordagem permite avaliar como as perdas podem crescer conforme a severidade do evento.

No cenário de 1 em 100 anos, as perdas estimadas para o município de São Paulo chegam a R$ 2,935 bilhões. Em eventos ainda mais severos, os valores aumentam de forma significativa: R$ 4,354 bilhões em um cenário de 1 em 250 anos e R$ 5,763 bilhões em um cenário de 1 em 500 anos.

A pesquisa também identifica subprefeituras com maior exposição estimada, como Sé, Pinheiros, Lapa, Butantã, Mooca, Vila Mariana, Ipiranga, Santo Amaro, Vila Prudente e Penha. A identificação dessas áreas permite orientar discussões sobre drenagem urbana, infraestrutura crítica, prevenção, proteção financeira e planejamento territorial.

Por que a modelagem catastrófica é importante para o mercado segurador?

Para o mercado segurador e ressegurador, a modelagem catastrófica é uma ferramenta essencial para compreender riscos extremos. Ao combinar informações hidrológicas, meteorológicas, geográficas, históricas, econômicas e de vulnerabilidade, os modelos ajudam a transformar um risco aparentemente difuso em cenários mensuráveis.

Esse tipo de análise é relevante para precificação, subscrição, provisão de capital, desenho de coberturas, gestão de portfólios, avaliação de concentração de riscos e planejamento de respostas a eventos extremos. Também pode apoiar governos e reguladores na definição de prioridades para adaptação climática e proteção financeira.

A apresentação lembra que, globalmente, o mercado de seguros e resseguros paga cerca de US$ 100 bilhões por ano em catástrofes e que mais de 50% do prêmio global de resseguro é direcionado a coberturas catastróficas. Também destaca que a modelagem tem ganhado espaço em demandas regulatórias relacionadas a reservas e capital em países da América Latina, como México, Colômbia, Chile e Peru.

No Brasil, a intensificação dos eventos climáticos extremos torna essa discussão mais urgente. A tragédia no Rio Grande do Sul em 2024 evidenciou que catástrofes climáticas podem provocar perdas humanas, sociais, econômicas e fiscais de grande escala. A pesquisa sobre São Paulo mostra que grandes centros urbanos também precisam se preparar para cenários de interrupção sistêmica, especialmente quando os riscos climáticos se combinam com alta densidade populacional, infraestrutura complexa e desigualdade territorial.

Como eventos climáticos extremos afetam a economia no longo prazo?

Outro ponto relevante do estudo é a atenção aos impactos econômicos de longo prazo. Desastres de grande magnitude não geram apenas gastos imediatos de reconstrução. Eles podem comprometer consumo, investimento, produtividade, arrecadação e crescimento econômico.

Quando famílias, empresas e governos precisam direcionar recursos próprios para recompor ativos perdidos, parte dos investimentos futuros é substituída por gastos emergenciais. Isso pode reduzir poupança, adiar projetos, pressionar orçamentos públicos e enfraquecer a capacidade de recuperação econômica.

Experiências internacionais citadas no estudo indicam que economias com maior acesso a mecanismos de proteção financeira e seguros tendem a apresentar recuperação mais rápida e menor impacto econômico de longo prazo. A lógica é que a indenização e outros instrumentos de transferência de risco ajudam a recompor ativos, preservar consumo, manter investimentos e reduzir a pressão sobre recursos públicos.

Nesse contexto, o seguro aparece como parte da infraestrutura de resiliência. Mecanismos de proteção financeira bem estruturados podem acelerar a recuperação, reduzir a pressão sobre o orçamento público, preservar poupança, sustentar a atividade econômica e diminuir os efeitos indiretos dos desastres.

A função do seguro, portanto, vai além da indenização individual. Em cenários de eventos climáticos extremos, ele pode operar como instrumento de estabilidade econômica e social, especialmente quando articulado a políticas públicas, planejamento urbano, investimentos em drenagem, prevenção e adaptação climática.

Quais são as recomendações do estudo para São Paulo?

O estudo aponta cinco frentes estratégicas para orientar ações futuras: priorizar intervenções em áreas de alta vulnerabilidade, assegurar a resiliência de infraestruturas críticas à população, evitar riscos em cadeia provocados pela interrupção de ativos sistêmicos, reforçar a infraestrutura de drenagem urbana e estruturar mecanismos de seguros e coberturas.

Essas recomendações indicam que adaptação climática não depende apenas de obras, nem apenas de seguros. Exige integração entre planejamento urbano, dados, prevenção, infraestrutura, regulação, gestão de riscos e proteção financeira.

Para uma cidade como São Paulo, esse tipo de abordagem é essencial para que a resposta aos eventos extremos seja menos reativa e mais preventiva. A identificação de áreas prioritárias permite orientar investimentos, fortalecer serviços essenciais, reduzir impactos sobre populações vulneráveis e construir mecanismos de recuperação mais rápidos e sustentáveis.

Ao trazer a discussão para o ambiente do setor segurador, o estudo também amplia o papel do mercado na agenda climática. Seguradoras, resseguradoras, corretores, especialistas em risco, gestores públicos e reguladores têm condições de contribuir não apenas na reparação de danos, mas também na identificação de vulnerabilidades, na construção de modelos de financiamento e na disseminação de uma cultura de prevenção.

O que o estudo revela sobre o futuro do seguro diante das mudanças climáticas?

A mensagem central da pesquisa é clara: São Paulo já está exposta a riscos climáticos com potencial catastrófico. Conhecer esses riscos em detalhe é o primeiro passo para reduzir perdas, proteger populações vulneráveis, preservar serviços essenciais e preparar a cidade para um futuro em que eventos extremos tendem a pressionar cada vez mais a infraestrutura urbana e os mecanismos tradicionais de proteção.

Para o setor de seguros, o estudo reforça uma mudança de perspectiva. O debate climático não se limita mais à pergunta sobre quem paga a conta depois do desastre. A questão passa a ser como medir, prevenir, distribuir e financiar riscos antes que eles se convertam em perdas bilionárias para a sociedade.

Em uma metrópole como São Paulo, alagamentos e inundações não são apenas eventos meteorológicos ou problemas de drenagem. São riscos urbanos, econômicos, sociais e seguradores. Por isso, a construção de resiliência climática exige dados, modelagem, cooperação institucional, investimento público, soluções privadas e mecanismos de proteção financeira capazes de responder à nova escala dos desastres.

A pesquisa mostra que o seguro pode ocupar um papel estratégico nessa agenda. Ao transformar risco em informação, cobertura e capacidade de recuperação, o setor segurador pode contribuir para que cidades, empresas e famílias estejam mais preparadas para enfrentar eventos extremos. Em um cenário de mudanças climáticas, essa capacidade de antecipação tende a ser tão importante quanto a resposta depois da perda.

Fonte: CNseg | Notícias do Seguro