Mercado segurador e Prefeitura de São Paulo unem forças para prevenir perdas bilionárias com enchentes e inundações


Parceria com a Prefeitura busca fortalecer prevenção, adaptação climática, resiliência urbana e proteção financeira diante do aumento dos riscos climáticos.

A cidade de São Paulo pode registrar perdas estimadas em R$ 2,9 bilhões em ativos e residências em um cenário extremo de inundação semelhante, em magnitude, ao desastre climático que atingiu o Rio Grande do Sul em 2024. O dado integra o estudo Avaliação de impactos climáticos no município de São Paulo, apresentado em 12 de junho durante evento promovido pelo Sindicato das Seguradoras de São Paulo (Sindseg SP).

Durante o encontro, o Sindseg SP anunciou uma parceria com a Prefeitura de São Paulo que permitirá ao município utilizar dados, modelagens e análises produzidas pelo mercado segurador para apoiar ações de prevenção, adaptação climática e planejamento urbano. A iniciativa busca ampliar a capacidade da cidade de antecipar riscos associados a enchentes, inundações e outros eventos climáticos extremos.

O estudo foi elaborado pelas consultorias Guy Carpenter e Oliver Wyman, com apoio do setor segurador, e oferece uma visão detalhada da exposição climática da maior cidade do país.

O que a parceria entre o mercado segurador e a Prefeitura de São Paulo pretende fazer?

A parceria tem como objetivo utilizar a experiência do mercado segurador na identificação, mensuração e modelagem de riscos para apoiar a formulação de políticas públicas e investimentos voltados à resiliência urbana.

Na prática, a iniciativa permitirá que a administração municipal utilize informações acumuladas pelo setor para compreender melhor a exposição da cidade a diferentes ameaças climáticas, identificar áreas prioritárias para intervenção e orientar decisões relacionadas a infraestrutura, drenagem, mobilidade, habitação e serviços essenciais.

A proposta reflete uma mudança importante na forma de lidar com desastres climáticos. Em vez de concentrar esforços apenas na reconstrução após os eventos, a estratégia busca fortalecer a prevenção e reduzir perdas antes que elas aconteçam.

Por que enchentes e inundações preocupam tanto São Paulo?

Segundo a pesquisa, a inundação fluvial concentra cerca de 76% dos riscos classificados como alto, muito alto ou extremo entre os perigos avaliados para a capital paulista. A análise também conclui que inundação e alagamento são os eventos com maior potencial de impacto sobre a cidade.

Em uma metrópole densamente urbanizada, os efeitos de uma inundação vão muito além dos danos físicos a imóveis. Um único evento severo pode interromper a mobilidade urbana, comprometer serviços de saúde, afetar escolas, reduzir a atividade econômica e atingir de forma mais intensa populações vulneráveis.

O estudo mostra que, em áreas classificadas como de risco alto, muito alto ou extremo para inundação fluvial, estão localizados:

  • 103,6 mil alunos;
  • 102,8 mil pessoas em situação de vulnerabilidade social;
  • 22,4 mil vagas de assistência social;
  • 1,3 mil leitos hospitalares;
  • 32 estações de trem e metrô.

Esses números ajudam a dimensionar como um evento climático pode se transformar simultaneamente em um problema econômico, social, operacional e urbano.

Como o estudo avaliou os riscos climáticos da capital?

A pesquisa analisou a exposição de São Paulo a cinco grandes ameaças climáticas:

  1. Inundação fluvial;
  2. Inundação pluvial;
  3. Incêndio florestal;
  4. Granizo;
  5. Vendaval.

Para isso, a cidade foi dividida em grids de 1 km², permitindo uma leitura territorial detalhada dos riscos e de seus potenciais impactos. A metodologia cruza informações climáticas com cinco pilares estratégicos:

  • Infraestrutura social;
  • Atividade econômica;
  • Mobilidade;
  • Vulnerabilidade social;
  • Serviços urbanos.

Em vez de observar apenas onde a água pode chegar, o estudo procura identificar quais atividades, serviços e populações podem ser afetados quando um evento extremo ocorre.

Quantos ativos estão expostos aos riscos climáticos?

A modelagem probabilística indica que aproximadamente 3,3 milhões de residências e 379 mil estabelecimentos comerciais e industriais estão potencialmente expostos a eventos de inundação e alagamento na capital paulista. Juntos, esses ativos representam mais de R$ 1,5 trilhão em valor exposto.

O estudo também estima diferentes cenários de perda conforme a intensidade do evento:

CenárioPerdas estimadas
1 em 20 anosRisco moderado
1 em 100 anos R$ 2,935 bilhões
1 em 250 anosR$ 4,354 bilhões
1 em 500 anosR$ 5,763 bilhões

Entre as subprefeituras com maior exposição aparecem Sé, Pinheiros, Lapa, Butantã, Mooca, Vila Mariana, Ipiranga, Santo Amaro, Vila Prudente e Penha.

O risco climático é também um risco econômico?

Sim. Um dos pontos centrais da pesquisa é mostrar que os impactos climáticos produzem efeitos em cadeia sobre diferentes sistemas urbanos.

Além das perdas patrimoniais, o estudo estima que interrupções em áreas comerciais e industriais podem provocar impacto de aproximadamente R$ 1,1 milhão por dia na arrecadação de ICMS e ISS.

Uma inundação de grande magnitude pode afetar simultaneamente:

  • Comércio;
  • Indústria;
  • Transporte;
  • Hospitais;
  • Escolas;
  • Equipamentos públicos;
  • Assistência social;
  • Infraestrutura energética;
  • Arrecadação tributária.

Quando múltiplos sistemas são afetados ao mesmo tempo, o risco deixa de ser apenas operacional e passa a ser sistêmico.

Qual é o papel do seguro na adaptação climática?

Durante o evento, o presidente do Conselho Diretor da CNseg, Roberto Santos, destacou a baixa proteção financeira existente no país para riscos climáticos.

Segundo ele, apenas 1% das residências brasileiras possuem cobertura para alagamento e inundação, enquanto os gastos públicos destinados à recuperação de desastres continuam crescendo.

O dado evidencia uma das principais lacunas de proteção do país: a distância entre a exposição aos eventos extremos e a capacidade financeira disponível para absorver as perdas.

Nesse contexto, o seguro deixa de ser visto apenas como um produto financeiro e passa a integrar a infraestrutura de resiliência das cidades. Ao acelerar a recuperação econômica, recompor ativos e reduzir a pressão sobre recursos públicos, os mecanismos de proteção financeira podem contribuir para diminuir os impactos sociais e econômicos dos desastres.

Como a modelagem catastrófica ajuda a prevenir perdas?

A modelagem catastrófica é uma ferramenta que combina dados meteorológicos, hidrológicos, geográficos, econômicos e sociais para transformar riscos climáticos em cenários mensuráveis.

Segundo o estudo, esse tipo de análise permite:

  • Identificar concentrações de risco;
  • Estimar frequência e severidade de eventos;
  • Apoiar a precificação de seguros;
  • Melhorar a gestão de portfólios;
  • Avaliar necessidades de capital;
  • Orientar investimentos públicos em adaptação climática.

Globalmente, o mercado de seguros e resseguros paga cerca de US$ 100 bilhões por ano em perdas associadas a catástrofes, enquanto mais de 50% dos prêmios globais de resseguro estão relacionados a coberturas catastróficas.

Quais são as principais recomendações do estudo?

A pesquisa identifica cinco frentes prioritárias para fortalecer a resiliência climática da capital paulista:

  1. Priorizar intervenções em áreas de maior vulnerabilidade;
  2. Garantir a resiliência de infraestruturas críticas;
  3. Reduzir riscos em cadeia associados à interrupção de serviços essenciais;
  4. Reforçar a infraestrutura de drenagem urbana;
  5. Desenvolver mecanismos de seguros e proteção financeira.

A análise sugere que adaptação climática depende da integração entre planejamento urbano, infraestrutura, dados, regulação, prevenção e mecanismos de transferência de risco.

Resiliência climática exige cooperação entre setor público e mercado segurador

Representando a Prefeitura de São Paulo, o secretário municipal de Infraestrutura Urbana e Obras, Marcos Monteiro, afirmou que a parceria ajudará a orientar ações voltadas à redução dos impactos dos eventos climáticos na cidade. A procuradora do município, Tatiana Robles Seferjan, também participou do encontro.

A iniciativa reforça uma tendência observada em diferentes países: a adaptação climática depende cada vez mais da cooperação entre governos, setor segurador, especialistas em risco, reguladores e instituições responsáveis pelo planejamento urbano.

O estudo mostra que os riscos climáticos em São Paulo não são apenas desafios meteorológicos. Eles afetam moradias, infraestrutura, mobilidade, atividade econômica, serviços públicos e populações vulneráveis. Por isso, compreender esses riscos, medir sua exposição e construir mecanismos de proteção financeira torna-se parte essencial da preparação das cidades para um cenário de eventos extremos mais frequentes e severos.

Fonte: CNseg | Notícias do Seguro