Avanço do clima extremo expõe fragilidades do seguro rural no país

Diversas regiões brasileiras já sentem os efeitos de um clima mais extremo, lembra Eduardo Assad, pesquisador e professor do Centro de Agronegócios da Fundação Getulio Vargas (FGV Agro). Ele destaca que, em uma vasta área entre o Centro-Oeste, Nordeste e sul da Amazônia, a temporada de chuvas está ficando mais curta, o que compromete a agricultura.

“Essa redução de umidade vem acompanhada de fortes ondas de calor. A cada grau que aumenta a temperatura no sul do Pará, por exemplo, a produtividade da soja perde 230 quilos por hectare”, afirma. Em outros locais, como o interior de São Paulo, culturas perenes, como o café e a laranja, também estão sofrendo com deficiência hídrica e temperaturas altas.

Um relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) publicado em novembro indica que o planeta ultrapassará de forma definitiva uma temperatura média de 1,5°C acima dos níveis pré-industriais já na próxima década. As estimativas atuais sugerem um aquecimento entre 2,3°C e 2,5°C até o final do século, acima da meta estabelecida em 2015 pelo Acordo de Paris, que era limitar o aumento a, no máximo, 2°C.

“Estamos vivendo problemas que projeções mais antigas diziam que só iriam acontecer a partir de 2030 ou 2040”, afirma Ana Maria Heuminski de Avila, agrometeorologista do Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura (Cepagri), ligado à Unicamp.

Entre 2013 e 2024, desastres climáticos geraram perdas de R$ 732,2 bilhões no Brasil e quase 60% desse total ficou concentrado na agricultura (R$ 325,7 bilhões) e na pecuária (R$ 94,4 bilhões), nos cálculos da Confederação Nacional dos Municípios (CNM).

Os efeitos do clima sobre o campo têm demandado cada vez mais dos cofres públicos. Nos últimos dez anos, os pagamentos de indenizações aos agricultores cobertos pelo Programa de Garantia da Atividade Agropecuária (Proagro) passaram de R$ 38,6 bilhões. Outros R$ 39 bilhões foram pagos em indenizações pelas companhias de seguros privadas a produtores rurais.

Inúmeras medidas paliativas de prorrogações e renegociações de dívidas foram elaboradas pelo governo federal recentemente até chegar a um aporte de R$ 12 bilhões em 2025 para um novo programa direcionado para amortização ou liquidação do passivo de produtores afetados pelo clima. Mesmo assim, o setor diz que é insuficiente e defende mudanças no sistema.

A principal delas é a previsibilidade. As empresas querem a garantia de que o orçamento anunciado será, de fato, aplicado pela União.

O modelo pretendido busca ainda a expansão da base de clientes por meio de incentivos no crédito a quem contrata as apólices do seguro, para a diversificação de risco pelas seguradoras, e a implementação do Fundo Catástrofe, para suportar momentos atípicos e “fora da curva” sem gerar uma fuga das empresas do mercado.

As alterações fazem parte de um projeto de lei discutido no Senado desde 2024, mas que pode demorar para virar realidade.

A Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg) diz que esse é um momento de virada de página: ou ocorrem mudanças efetivas e ampliação do seguro no país ou ele poderá virar um produto de nicho. Em 2025, apenas 3% da área plantada foi segurada com subvenção federal.

As apostas para o futuro do seguro rural no Brasil estão na maior aplicação de tecnologia e na segregação dos públicos. É necessário obter e tratar os dados por propriedade rural e não mais no âmbito dos municípios, o que torna a precificação do risco “generalista”, indica Vitor Osaki, diretor-presidente da Picsel, empresa de tecnologia especializada em seguro agrícola.

Fonte: Gloro Rural Por Marcelo Beledeli e Rafael Walendorff