O papel do seguro na reconstrução após desastres climáticos
Os dados indicam que o seguro pode acelerar a recuperação após desastres e reduzir o impacto financeiro imediato. No entanto, a baixa cobertura no Brasil e em países vulneráveis amplia desigualdades e transfere quase todo o custo para famílias e governos. Ainda há lacunas importantes de pesquisa, especialmente sobre qualidade da reconstrução e efeitos de longo prazo na resiliência climática. O desafio agora não é apenas expandir seguros, mas fazê-lo de forma inclusiva, sustentável e integrada às políticas públicas de adaptação.
Quando uma enchente, seca extrema ou furacão atinge uma região, a primeira necessidade é imediata: dinheiro para reconstruir casas, retomar atividades e reorganizar a vida. É nesse momento que o seguro pode fazer toda a diferença.
Ele funciona como uma fonte rápida de recursos, ajudando a reduzir o impacto financeiro logo após o desastre. No entanto, no Brasil, ainda existe uma grande lacuna de proteção.
Entre 2022 e 2024, apenas cerca de 9% das perdas causadas por desastres climáticos estavam seguradas. A desigualdade regional é marcante: enquanto o Sul concentra os maiores prejuízos, o Norte e o Nordeste têm menos de 2% das perdas cobertas por seguro.
Estudos internacionais mostram que pessoas e comunidades que têm seguro tendem a reconstruir mais rapidamente, enfrentam menos sofrimento financeiro e conseguem retomar suas atividades com mais agilidade. O problema é que os mais pobres - justamente os mais vulneráveis - são os que menos têm acesso ao seguro, o que acaba ampliando desigualdades.
Além disso, ainda há poucas pesquisas que avaliem se a reconstrução feita com apoio do seguro resulta em construções mais seguras ou adaptadas ao novo cenário climático. As evidências indicam ganhos em velocidade e capacidade de recuperação, mas também apontam riscos de exclusão (baixa cobertura em áreas vulneráveis) e de “risco moral” — quando a existência do seguro poderia reduzir o incentivo a medidas preventivas. Estudos, porém, mostram resultados mistos sobre esse ponto.
Quais seguros são usados em desastres climáticos?
Seguro tradicional (residencial e patrimonial)
É o modelo mais conhecido. Após o dano, a seguradora avalia as perdas e paga o valor correspondente ao prejuízo comprovado.
- Vantagem: cobre exatamente o que foi perdido.
- Desvantagem: o processo pode ser burocrático e demorado.
Seguro agrícola
Voltado a produtores rurais, muitas vezes com subsídio público. Cobre perdas de safra por seca, geada ou excesso de chuva. No Brasil, apesar da importância, apenas cerca de 10% da área agrícola é segurada, principalmente devido a custos e prazos longos.
Seguro paramétrico (ou de índice)
Aqui, o pagamento é automático quando um indicador objetivo (volume de chuva, intensidade do vento, temperatura, índice de seca etc.) ultrapassa um limite pré-definido.
Como não exige vistoria individual, o pagamento pode sair em dias, não meses.
Vantagens:
- Rapidez
- Transparência (uso de dados públicos)
- Menor custo operacional
Desvantagem:
- Pode ocorrer o chamado “risco de base”: o seguro pode não pagar mesmo havendo prejuízo local - ou pagar mesmo que a perda tenha sido menor.
Microseguros paramétricos
São versões simplificadas, voltadas a pequenos produtores e comunidades vulneráveis, com prêmios baixos e indenizações rápidas.
Exemplo: na Guatemala, um programa do Programa Mundial de Alimentos (PMA) cobre cerca de 14.700 famílias (73.500 pessoas). Cada família paga cerca de US$ 46 por ano e recebe US$ 250 por evento climático, podendo chegar a US$ 500 anuais.
Esses modelos aumentam a inclusão, mas dependem frequentemente de subsídios e enfrentam desafios de divulgação em regiões com pouca cultura de seguro.
Pools regionais e soluções internacionais
Alguns países optaram por se unir para dividir riscos.
O CCRIF SPC (Caribe e América Central) reúne 35 países. Entre 2024 e 2025, realizou 82 pagamentos em até 14 dias, totalizando US$ 483 milhões.
Exemplos:
US$ 91,9 milhões para a Jamaica após o furacão Melissa (2025)
US$ 84,5 milhões para sete países após o furacão Beryl (2024)
A lógica é simples: ao dividir riscos regionalmente, os custos diminuem e os governos recebem recursos quase imediatos.
Na África, existe o African Risk Capacity (ARC), que inclusive lançou em 2024 uma solução compatível com princípios islâmicos (ARC Re-Takaful).
Cat Bonds: o seguro no mercado financeiro
Os chamados Títulos de Catástrofe (Cat Bonds) são instrumentos do mercado de capitais. Investidores compram títulos que pagam juros atrativos. Se o desastre ocorrer, o dinheiro é usado para cobrir perdas.
O México, por exemplo, reforçou seu fundo de desastres com esse modelo.
Vantagem: mobiliza grandes volumes de recursos privados.
Desvantagem: é sofisticado, caro de estruturar e depende das condições de mercado.
O caso brasileiro: Rio Grande do Sul
As enchentes de 2023–2024 no Rio Grande do Sul são um exemplo claro da lacuna de proteção.
- Cerca de 2,4 milhões de pessoas afetadas
- R$ 35,6 bilhões em perdas diretas
- Estimativas mais amplas apontam até R$ 100 bilhões em prejuízos
- Apenas R$ 6 bilhões (cerca de 6%) estavam segurados
Ou seja, a maior parte do custo recaiu sobre vítimas e sobre o poder público.
Evidências: o seguro realmente acelera a recuperação?
Estudos internacionais indicam que sim.
Pesquisas mostram que segurados:
- Reconstruem com maior probabilidade
- Sofrem menos impacto financeiro
- Retomam atividades mais rapidamente
Um estudo de 2025 nos Estados Unidos utilizou inteligência artificial para analisar imagens do Google Street View antes e depois de desastres. A conclusão foi que áreas de maior renda reconstruíram muito melhor que áreas pobres, ampliando desigualdades — o que sugere que a falta de recursos, inclusive seguros, aprofunda a vulnerabilidade.
Ainda faltam estudos sólidos sobre qualidade da reconstrução e impactos de longo prazo, especialmente no Brasil.
Desigualdade e exclusão
No Brasil, apenas cerca de 17% das residências têm algum tipo de seguro.
As regiões mais pobres são as menos protegidas.
Além disso, exigências como documentação fundiária ou comprovação formal de renda excluem populações vulneráveis. Em seguros paramétricos, o risco de base pode deixar vítimas sem indenização mesmo havendo perdas reais.
Sobre o risco moral (a ideia de que o seguro desestimularia prevenção), estudos na Alemanha não encontraram evidências fortes desse comportamento. Mesmo assim, políticas podem vincular descontos ou cobertura ampliada à adoção de medidas preventivas.
Barreiras e desafios
- Alto custo inicial para desenvolver seguros paramétricos (estações meteorológicas, satélites, modelagem).
- Dependência de subsídios em países em desenvolvimento.
- Cortes orçamentários, como ocorreu com o Programa de Subvenção ao Seguro Rural no Brasil.
- Barreiras regulatórias que dificultam microseguros.
- Sustentabilidade financeira dos modelos.
Inovações promissoras
- Uso de satélites e inteligência artificial para melhorar precisão.
- Startups brasileiras oferecendo seguros digitais parametrizados.
- Endossos que incentivam reconstruções mais resistentes.
- Uso de blockchain para transparência.
- Financiamento climático internacional (como a InsuResilience Global Partnership).
- Modelos que combinam seguro com crédito pós-desastre.
O que pode ser feito?
Curto prazo (1–2 anos)
Governos:
- Mapear vulnerabilidades
- Criar fundos de reconstrução resiliente
- Oferecer subsídios direcionados
- Flexibilizar regulamentações
Seguradoras:
- Desenvolver produtos simples e acessíveis
- Investir em tecnologia
- Ampliar resseguro e cat bonds
ONGs:
- Promover cultura de seguro
- Apoiar microseguros
- Treinar comunidades locais
Médio prazo (3–5 anos)
- Exigir seguro em áreas de risco
- Criar pools regionais na América Latina
- Integrar seguro às políticas climáticas nacionais
- Expandir operações digitais
- Incentivar reconstruções adaptadas
- Apoiar pesquisas de impacto
Longo prazo (5–10 anos)
- Aumentar cobertura para 50–70% das residências em áreas de alto risco até 2030
- Criar mercados nacionais de cat bonds
- Integrar seguro a financiamentos imobiliários
- Tornar seguradoras protagonistas na adaptação climática
- Monitorar continuamente a eficácia das soluções
Fonte: CNseg |Noticias do Seguro