De uma pequena sala a uma referência feminina no mercado de seguros

As mulheres representam 55% da força de trabalho no mercado de seguros, mas ocupam apenas 1% dos cargos de alta liderança. O dado, revelado em pesquisa realizada pela Escola de Negócios e Seguros em parceria com a Sou Segura, expõe uma contradição ainda presente no setor.
Para Lilliana Vale, corretora de seguros e sócia da Sorella, é preciso que as mulheres se posicionem de forma mais firme no mercado. No entanto, ela ressalta que a transformação não depende apenas delas, mas de uma mudança de mentalidade em todo o segmento.
“Não dá para entender: mais de 50% do mercado é formado por mulheres e são pouquíssimas em cargos de chefia.”
Segundo Lilliana, é necessário repensar e reestruturar as posições de liderança dentro das seguradoras.
“Mulheres, não deixem de se impor, não deixem de brigar pelos seus direitos. É importante reunir várias mulheres nesses movimentos e nesses espaços, mas, muito além disso, é preciso se impor no dia a dia e mostrar que você é, sim, capacitada. Além disso, precisamos mudar essa mentalidade masculina ainda muito presente no mercado.”
O nome Sorella, que significa “irmã” em italiano, traduz a essência da corretora. A empresa foi fundada em 1999 pelas sócias Dalva Beduschi, Lilliana Vale e Lourdes Vale. As três começaram em uma pequena sala, trabalhando lado a lado. Com o crescimento da operação, vieram novas contratações, até que a equipe passou a demandar uma estrutura maior.
Hoje, a corretora está instalada em um casarão no bairro Alameda, em Blumenau, onde permanece sólida após mais de duas décadas de atuação.
Lilliana avalia que o mercado catarinense é próspero e oferece espaço para profissionais dedicados. Ela lembra, porém, que empreender exige paciência e planejamento.
“Sempre soube que abrir uma corretora exigia paciência. Na época, já existia aquele conceito de que o primeiro ano seria de muito investimento e pouco retorno, e que somente depois de três anos começaria, de fato, a dar lucro.”
Para ela, a dedicação sempre foi o principal diferencial ao longo da trajetória.
“Toda a minha trajetória, desde quando comecei até hoje, eu vejo da mesma forma: se não houver dedicação e amor pelo que se faz, nada acontece.”
Apesar dos avanços, Lilliana acredita que as mulheres ainda enfrentam barreiras importantes no setor de seguros.
“Hoje, as mulheres conquistaram mais espaço no mercado como um todo, mas ainda há muito a mudar, principalmente no mercado de seguros, que costuma ser bastante injusto com elas. Hoje, aos 67 anos, sei que, se tivesse permanecido em uma empresa como funcionária, talvez nem estivesse mais no mercado, simplesmente por ser mulher.”
Ela destaca que as profissionais ainda convivem com preconceitos em diferentes fases da vida. Quando são jovens, enfrentam resistência sob a justificativa de que podem engravidar. Mais tarde, passam a ser consideradas “velhas demais” para o mercado.
“Esses questionamentos precisam ser feitos às seguradoras. Por que uma mulher jovem sofre resistência porque pode ter filhos e, depois de certa idade, é vista como velha demais para o mercado? Filhos nunca foram um empecilho. Pelo contrário, eles trazem ainda mais vontade de trabalhar para construir um futuro melhor.”
Lilliana também fala sobre a sobrecarga feminina.
“Sabemos que é a mãe quem realmente está à frente, com a tripla jornada: trabalho, filhos e casa. Eu ainda vivi uma quarta jornada, quando precisei cuidar da minha mãe, que ficou acamada por dez anos. E, mesmo assim, entreguei meu trabalho. Está na hora de perguntar às seguradoras o porquê.”
A ideia de criar uma corretora formada por mulheres surgiu de forma inusitada. Na época em que ainda trabalhava em outra empresa, Lilliana comentou com colegas sobre o desejo de ter, um dia, uma empresa composta apenas por mulheres. O comentário veio logo após assistir ao filme “Mulheres do Século 20”, de Mike Mills.
“Eu estava organizando aquelas tarifas de seguro na prateleira e disse aos colegas: ‘Vocês não acreditam, ontem vi um filme fantástico. Um dia eu quero ter uma empresa só de mulheres’. Quando virei, o gerente estava muito sério. Depois, todos rimos. Mas, quando saí de lá, comecei a me organizar. E, quando decidimos montar a Sorella, eu já sabia que seria uma corretora feita por mulheres.”
Hoje, mais de 25 anos após a fundação da Sorella, as três sócias já planejam a sucessão da empresa.
“A maior prova de que tudo valeu a pena é que somos três sócias e já estamos preparando a sucessão. Nós começamos, construímos e, em breve, entregaremos uma história. Batalhamos muito e sabemos que nossos filhos poderão dar continuidade a esse trabalho de forma ainda melhor. Com o acesso à tecnologia e os clientes fidelizados ao longo desses anos, é possível manter uma corretora de seguros feita por mulheres e garantir a continuidade dessa história.”
Fonte: SulSeguro.SC por Victor Hugo