Guerra no Irã deve impactar mercado de seguros
(Foto: EPA)
O agravamento das tensões envolvendo o Irã já começa a gerar reflexos na economia global e pode trazer consequências para o mercado brasileiro de seguros e resseguros. A alta das expectativas de inflação, a manutenção de juros elevados e a maior volatilidade internacional estão entre os fatores que exigem atenção das companhias do setor.
Para Dyogo Oliveira, presidente da CNseg, os efeitos da guerra chegam ao mercado segurador principalmente por canais indiretos, ligados à inflação e ao ritmo da atividade econômica. “A guerra do Irã tem um impacto importante em termos inflacionários no mundo inteiro, no Brasil também, e isso impacta principalmente o valor das indenizações”, afirma.
Segundo ele, o conflito contribui para pressionar preços de produtos e serviços, aumentando o custo dos sinistros para as seguradoras. Além disso, uma eventual desaceleração econômica global pode limitar o crescimento do setor. “A correlação entre crescimento econômico e seguros é muito próxima. Uma economia global que desacelera, e consequentemente a economia brasileira também desacelera, significa menos espaço para o desenvolvimento do mercado de seguros”, destaca o presidente da CNseg.
Apesar dos desafios, Oliveira avalia que momentos de crise costumam estimular a inovação no setor. Para ele, o atual cenário reacendeu discussões sobre a ampliação de coberturas voltadas a riscos de guerra e eventos geopolíticos.
“Essas circunstâncias também criam oportunidades. Há um debate internacional sobre a necessidade de desenvolver e ampliar coberturas para riscos de guerra, criando produtos mais eficientes para atender essa demanda”, observa.
Na visão de Rafaela Barreda, presidente da Fenaber, os impactos sobre o mercado brasileiro de resseguros ocorrem principalmente por meio dos efeitos do conflito sobre commodities, logística e cadeias globais de abastecimento.
“O conflito no Oriente Médio e a volatilidade geopolítica têm impacto, principalmente indireto, sobre o mercado brasileiro de resseguros, via choques de commodities e logística internacional”, explica.
De acordo com ela, a maior exposição a riscos de guerra, terrorismo e interrupções logísticas tem levado resseguradoras a rever estratégias de subscrição e capacidade de cobertura. “As instabilidades elevam a exposição a riscos de guerra, terrorismo e interrupção das cadeias de suprimentos, levando as resseguradoras a revisar políticas de aceitação, limitar capacidade em regiões mais voláteis e corrigir precificação”, afirma.
Rafaela acrescenta que setores ligados ao transporte marítimo e aéreo, energia, logística e operações de importação e exportação tendem a sentir esses reflexos de forma mais intensa.
A inflação também aparece como um dos principais pontos de atenção para seguradoras e resseguradoras. Segundo a executiva, o aumento dos preços pressiona diretamente o valor dos sinistros.
“A inflação mais alta eleva o custo de reposição de bens e outras perdas cobertas, exigindo ajustes para que os prêmios reflitam adequadamente a exposição ao risco”, ressalta.
Para ela, o desafio do setor é equilibrar crescimento e sustentabilidade financeira em um ambiente econômico mais complexo. “A prioridade deve ser garantir que o capital aplicado no mercado de seguros e resseguros seja alocado de forma a gerar retornos sustentáveis no longo prazo, e não apenas crescimento de receita”, pontua.
O cenário também tende a tornar as resseguradoras mais seletivas. Segundo Rafaela Barreda, o aumento das incertezas geopolíticas faz com que as empresas ampliem as exigências relacionadas à governança, qualidade dos dados e modelagem de riscos. “No Brasil, isso pode significar menor disposição para absorver riscos de grande concentração, maior uso de cosseguro e uma busca crescente por instrumentos alternativos de transferência de riscos”, afirma.
Além das questões geopolíticas, a presidente da Fenaber aponta que o setor ainda enfrenta desafios relacionados aos riscos climáticos, cibernéticos e regulatórios, que passaram a ter peso cada vez maior nas estratégias das empresas.
Já Francisco Galiza, mestre em Economia pela FGV e catedrático da ANSP (Academia Nacional de Seguros e Previdência) na cadeira Ciências Econômicas do Seguro, destacou recentemente que o conflito contribuiu para elevar as expectativas de inflação e reduzir o espaço para uma queda mais acelerada dos juros no Brasil.
Segundo ele, esse movimento pode afetar segmentos mais sensíveis ao crédito, como o seguro de automóveis, além de influenciar o comportamento do consumo e dos investimentos nos próximos meses.
Diante desse cenário, especialistas concordam que o mercado segurador deverá acompanhar de perto os desdobramentos do conflito, seus reflexos econômicos e as oportunidades que podem surgir a partir da necessidade de novas coberturas e soluções de proteção.
Fonte: CQCS l Ana Mello