Dívidas sufocam orçamento e afetam contratação de seguros no Brasil

O avanço recorde do endividamento das famílias brasileiras está produzindo um efeito preocupante para o mercado segurador: a redução dos gastos com proteção. Pressionados por juros elevados, renda comprometida e contas em atraso, milhões de brasileiros estão cortando despesas consideradas não essenciais, entre elas seguros, previdência privada e outros mecanismos de proteção patrimonial e familiar.
O movimento ocorre justamente em um momento de maior vulnerabilidade econômica. Sem reservas financeiras e sem cobertura securitária, imprevistos como doenças, perda de renda, roubo ou danos ao patrimônio podem aprofundar ainda mais o ciclo de endividamento.
Em julho, 82% das famílias brasileiras estavam endividadas, maior nível da série da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio (CNC). A inadimplência atingiu 29,8%, enquanto a parcela da renda comprometida com dívidas chegou a 29,5%.
A situação também aparece nos números da Serasa. Em junho, o país registrava 83,7 milhões de inadimplentes, alta de 7,5% em relação ao mesmo período de 2025. O estoque de dívidas alcançou R$ 579,5 bilhões, equivalente a uma média de R$ 6.920 por consumidor.
“Os dados mostram que a inadimplência voltou a crescer com mais força”, afirma Aline Vieira, especialista da Serasa em educação financeira.
Para o setor de seguros, o impacto é imediato. Segundo André Nunes, diretor de Assuntos Corporativos da CNseg, os produtos de proteção de longo prazo costumam ser os primeiros atingidos quando o orçamento aperta.
“Previdência privada e seguros de Vida mais abrangentes perdem espaço. Produtos considerados menos essenciais, como seguro Residencial completo, Seguro Viagem e Seguro Pet, acabam saindo do orçamento familiar”, explica.
Em contrapartida, seguros vinculados a financiamentos e dívidas, como o Prestamista, além de coberturas obrigatórias ou consideradas indispensáveis, tendem a sofrer menos impacto. “O consumidor não cancela necessariamente toda a proteção. Ele reduz coberturas e mantém apenas aquilo que considera fundamental”, acrescenta.
Os juros continuam sendo o principal combustível dessa deterioração financeira. Dados do Banco Central mostram que o endividamento das famílias alcançou 49,8% da renda acumulada em 12 meses, enquanto o comprometimento da renda com pagamento de dívidas chegou a 28,5%. No crédito para pessoas físicas, a inadimplência já alcança 5,6%.
Para o economista Marcos Melo, do IBMEC-DF, a equação é simples: quanto maior a despesa financeira, menor o espaço para consumo e proteção.
“Grande parte da renda está sendo absorvida pelos juros. As famílias deixam de consumir e também deixam de contratar produtos que servem justamente para prevenir perdas futuras, como seguros e previdência”, afirma.
Os sinais de aperto aparecem ainda na poupança. Entre janeiro e julho deste ano, os brasileiros retiraram líquidos R$ 46,5 bilhões da caderneta. Ao mesmo tempo, os gastos com apostas esportivas continuam drenando recursos das famílias. Segundo estimativas do Comitê Nacional de Secretários de Fazenda, as bets consumiram R$ 62,5 bilhões em 2025.
Quando cortar o seguro sai mais caro
Na avaliação da CNseg, existe um paradoxo no comportamento do consumidor brasileiro. Em períodos de dificuldade financeira, muitos enxergam o seguro como um gasto dispensável. No entanto, é justamente nesses momentos que a proteção se torna mais necessária.
“Sem reserva financeira e sem transferência de risco, qualquer evento inesperado pode gerar consequências devastadoras para a família”, diz Nunes.
Segundo ele, estudos indicam que famílias sem cobertura securitária levam mais de dois anos para recuperar sua estabilidade financeira após eventos como incêndios, roubos ou doenças graves.
O executivo defende que o setor avance na chamada educação financeira e securitária. Mais do que estimular poupança ou investimentos, o objetivo seria conscientizar a população sobre a importância de proteger patrimônio e renda.
“O seguro ainda é visto como despesa. Precisamos mostrar que ele é uma ferramenta de proteção. Sem cobertura, um imprevisto frequentemente se transforma em mais dívida”, afirma.
Educação financeira ajuda, mas não resolve sozinha
Especialistas concordam que a educação financeira é parte da solução, mas não a única resposta para o problema.
Para Catarina Carneiro, economista da CNC, o crédito é um instrumento importante para o consumo e para a atividade econômica. O desafio está em evitar que o endividamento evolua para a inadimplência.
“A educação financeira ajuda o consumidor a usar melhor o crédito. Mas fatores como juros, renda e emprego continuam sendo determinantes para a capacidade de pagamento das famílias”, destaca.
Enquanto isso, o mercado segurador acompanha com preocupação a deterioração do orçamento doméstico. Afinal, quanto maior o endividamento, menor a capacidade de contratação de proteção financeira. E quanto menor a proteção, maior o risco de que um imprevisto transforme uma dificuldade temporária em uma crise financeira de longo prazo.
Fonte: CNseg | Notícias do Seguro