Fragmentação financeira ameaça funcionamento do resseguro global

A eficiência do mercado global de seguros e resseguros está sob ameaça velada em virtude das tensões geopolíticas. Esta é uma das principais conclusões de um novo estudo da Geneva Association (ou Associação de Genebra). O relatório Global financial fragmentation: implications for the Insurance and Reinsurance Industries examina a gradual fragmentação financeira global e afirma que as mudanças nos fluxos de capitais, investimentos e riscos entre os países geram efeitos adversos sobre seguradoras e resseguradoras. Embora não haja, por ora, sinais de risco de colapso do sistema financeiro global, a tendência de regionalização dos fluxos financeiros pode tornar o setor de seguros menos eficiente, elevar seus custos e aumentar sua vulnerabilidade.
Reconfiguração do mercado gera perdas
O relatório explica que a fragmentação financeira ocorre quando as decisões de investimento, financiamento e alocação de capital passam a ser cada vez mais influenciadas por interesses geopolíticos, sanções econômicas, divergências regulatórias e restrições aos fluxos internacionais de recursos. Os sinais dessa reconfiguração do sistema financeiro incluem a redução gradual da participação do dólar nas reservas internacionais; o crescimento das reservas em ouro e em moedas alternativas; o redirecionamento dos investimentos estrangeiros para países politicamente alinhados; a expansão de sistemas alternativos de pagamentos internacionais; e o aumento das sanções financeiras e das restrições regulatórias. Em outras palavras, a globalização financeira, cada vez mais seletiva e estruturada em blocos geopolíticos, afeta diretamente os mercados de seguros e resseguros, dada sua forte dependência da integração internacional.
A Associação de Genebra lembra que as resseguradoras globais atuam como grandes distribuidoras de riscos, absorvendo perdas em diferentes países e redistribuindo esses riscos em escala mundial. Quando os fluxos de capitais e as transferências de riscos passam a enfrentar barreiras geopolíticas, essa função se torna menos eficiente.
As barreiras regulatórias e financeiras reduzem a capacidade global de resseguro e podem concentrar as operações em determinadas regiões. Na prática, isso significa que menos empresas estarão dispostas a assumir riscos em mercados considerados geopoliticamente sensíveis; que o custo do resseguro tende a aumentar; e que as seguradoras precisarão manter mais capital próprio para cobrir os riscos. Nesse cenário, o resultado pode ser o encarecimento dos seguros para empresas e consumidores.
Pulverização de riscos tende a se regionalizar
A pulverização dos riscos assumidos pelas resseguradoras é estratégica para seus resultados. Isso porque uma resseguradora pode compensar perdas em um país com resultados positivos em outros mercados. A fragmentação, portanto, reduz essa capacidade de diversificação. Segundo o estudo, esse processo pode elevar a volatilidade dos resultados, aumentar a exposição a eventos catastróficos regionais e favorecer a concentração de riscos dentro de blocos geográficos.
As políticas de investimento das seguradoras e resseguradoras também são afetadas. Como grandes investidores institucionais, esses grupos dependem da diversificação global para equilibrar risco e retorno. Em um ambiente de fragmentação financeira, o estudo aponta para uma tendência de ampliação dos investimentos em ativos domésticos, redução da exposição a mercados estrangeiros e aumento dos custos de proteção cambial (hedge).
Outras consequências das tensões geopolíticas incluem maiores dificuldades para a transferência internacional de recursos, a movimentação de garantias financeiras e a recuperação de créditos de resseguro, além da retração das operações em moeda estrangeira. Em momentos de estresse financeiro, essas restrições podem agravar problemas de liquidez e solvência, afirma o relatório.
Cenários possíveis
O estudo apresenta três cenários para avaliar os impactos potenciais da fragmentação financeira. No primeiro, denominado segmentação, as restrições afetam principalmente países considerados rivais geopolíticos. Nesse contexto, a pesquisa projeta uma queda de cerca de 35% na capacidade de resseguro desses mercados e uma alta de aproximadamente 8% nos preços do resseguro, com efeitos limitados sobre o restante do sistema. A conclusão é que a fragmentação localizada gera impactos relevantes, mas não sistêmicos.
No segundo cenário, denominado realocação, o relatório considera uma expansão da fragmentação para uma parcela maior dos mercados financeiros. Entre os efeitos previstos estão a migração da capacidade de resseguro para países politicamente alinhados; a retração de até 30% do volume de negócios em regiões menos integradas; o aumento da concentração regional dos riscos; e a redução da eficiência global na transferência de riscos. Ainda assim, o estudo considera que o setor conseguiria se adaptar sem enfrentar uma crise estrutural.
O terceiro cenário, denominado amplificação, é o mais severo, pois combina a fragmentação financeira com um choque de mercado, como uma escalada de sanções, o congelamento de reservas internacionais, uma crise de crédito ou uma forte alta dos juros. Nesse ambiente, a fragmentação atua como amplificadora da crise, podendo provocar forte deterioração do capital das seguradoras, aumento das necessidades de liquidez, vendas forçadas de ativos e pressões sobre a solvência de algumas empresas. Segundo o relatório, o problema não está apenas na fragmentação em si, mas também no fato de ela reduzir a capacidade do sistema de absorver choques quando ocorrem.
Os impactos da fragmentação financeira global são múltiplos. Para empresas e consumidores, esse cenário pode significar seguros mais caros, menor oferta de cobertura para riscos complexos e ampliação das lacunas de proteção, especialmente nos mercados emergentes.
Diante desse contexto, seguradoras e resseguradoras precisam rever suas estratégias, reforçar a liquidez, diversificar parceiros e incorporar os riscos geopolíticos às decisões de negócio. O desafio para os reguladores será encontrar o equilíbrio entre a proteção das economias nacionais e a preservação da cooperação internacional, indispensável para garantir a capacidade do setor de responder a crises cada vez mais frequentes e complexas.
A avaliação é que a fragmentação não ameaça a sobrevivência do mercado global de seguros, mas exige uma adaptação profunda para preservar sua função essencial de proteção econômica em um mundo mais dividido e incerto.
Perfil da Geneva Association
- A Geneva Association é o único think tank global que reúne exclusivamente os CEOs das maiores empresas de seguros e resseguros do mundo.
- Fundada em 1973 com sede em Zurique, Suíça, a organização tem como missão identificar e analisar tendências de longo prazo que impactam o setor, promovendo o papel estratégico dos seguros na construção de resiliência social e econômica.
- Conta com 100 membros seniores que gerenciam trilhões de dólares em ativos (US$ 25 trilhões), encarregados de proteger 2,7 bilhões de pessoas no mundo.
- A Associação de Genebra colabora diretamente com líderes políticos, reguladores e acadêmicos para moldar o futuro da gestão de riscos globais em áreas como mudanças climáticas, estabilidade financeira, saúde e transformação digital.
Fonte: CNseg | Notícias do Seguro